segunda-feira, 20 de julho de 2020

REFLEXÕES DE UM TEMPO DE QUARENTENA (PARTE 4)

"O medo evidencia falta!"

Nada me angustia mais que altura. Seja vendo-me a grande altura, seja observando alguém a grande altura; em ambos a sensação que se levanta dentro em mim é indescritível. Agora, imagine assistindo apresentações de equilibrismo: as de circo já me inquietam, agora, como a daquele equilibrista que atravessou as, hoje inexistentes, Torres Gêmeas de Nova York (World Trade Center), andando sobre um cabo de aço a não sei quantos metros de altura, é desesperadora!
Naquele caso, específico, incrivelmente, o equilibrista conseguiu. E o que o fez lograr êxito? Coragem. Coragem que, apesar de não anular totalmente o seu adversário: o medo, permitiu ao profissional lograr êxito quanto ao intento desejado.
No entanto, a vitória alcançada demandou análise, estudo, preparo técnico, físico, psicológico e uma afirmação interior que o desafio era gigante, mas passível de ser vencido, e por isso o foi.
A vida espiritual incorre quase que nos mesmos parâmetros, visto que: existem obstáculos a superar, meios a utilizar, seriedade no preparar-se, tudo para que um objetivo seja alcançado. E o objetivo não é outro, senão, a salvação, a vida eterna.
Esses obstáculos se insurgem de diversas formas e maneiras, e nestes dias um deles diz respeito a essa "epidemia" mundial causada por um vírus que vem amedrontando nações, lançando o povo num medo quase histérico, levando ao extremo de ter de ver-se sujeito a um isolamento social, a uma quarentena.
E todo esse medo por quê? Pelo medo da morte. E se existe medo da morte algo está faltando, por que o medo é falta. E o que está faltando? Por que isso acontece? Está faltando a fé; fé que, ao contrário do equilibrista que, provavelmente, firmava-se somente no seu preparo e habilidade, necessitaa ir além da capacidade humana, ela precisa de Deus.
Assim, o medo é falta de fé em Deus em primeiro, e isso acontece por que um dos meios para adquiri-la e aperfeiçoá-la é a oração, intimidade com o Senhor, intimidade que é fruto da seriedade, da busca fiel, do empenho em se deixar ser aprimorado na alma.
A intimidade gera o amor a Deus, e diz a Palavra que "Onde há amor não há temor" (1 Jo 4, 18), e que "Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor." (Rm 8, 38-39).
Logo, se um minúsculo vírus intimida, se faz gigante, é por que a fé se apequenou, o amor mirrou, e Deus se desvaneceu. Triste é constatar isto numa imensidade de povo, e falo aqui dos que professam uma fé, que vão à Igreja, lêem a Palavra, rezam, mas que ante o desafio não se portam como Davi ante Golias. O grande rei venceu por que a fé no Deus Todo Poderoso o fazia imensamente maior que aquele gigante que aos seus olhos media quase o dobro de sua altura e poderia esmagá-lo com facilidade.
O que se percebia nos discípulos, depois Apóstolos é que, antes de uma experiência profunda com Deus por meio do Espírito Santo, eram medrosos e atemorizaram-se ante os judeus e romanos. Após Pentecostes, nada mais os detinha, nem o perigo iminente da morte. E o que os fazia agora, tão corajosos e audaciosos? O penhor da vida eterna.
Esta realidade é um chamamento a voltar a intimidade com Deus, afim de que avive-se a fé, floresça o amor, desperte a coragem, suspire o desejo do céu, e assim, nem vírus, ou outra coisa serão motivo de medo, afinal, "Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sabedoria" (1 Tm 1, 7).
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 19 de julho de 2020

REFLEXÕES DE UM TEMPO DE QUARENTENA (PARTE 3)

"...foi obediente até a morte, e morte de cruz"

Certa vez li, em algum lugar, que o inimigo pode se travestir de humilde, piedoso, até de anjo de luz (2 Cor 11, 14), mas nunca de obediência. Por isso que, também li em outro lugar, que para se desmascarar a falsa humildade, a falsa santidade é só obrigar esse alguém a obedecer, e foi o que aconteceu em certa passagem da vida do seráfico São Francisco.
Narra as Fontes Franciscanas que certa vez, ao chegar a um eremitério franciscano, os irmãos que ali viviam apresentaram ao santo um frade, louvando-lhe as suas virtudes e como seguia à risca a regra da Ordem. São Francisco em um particular com o responsável pelo eremitério, fez o seguinte pedido: "Ordene a este frade que se confesse todos os dias por uma semana", e foi-se.
Tempos depois, ao retornar ao mesmo lugar perguntou ao superior sobre o frade e se tinha cumprido o que havia ordenado. Foi relatado a São Francisco que o frade se recusara a obedecer a ordem e se retirou do eremitério, ficando sabendo, depois, que o mesmo tinha enveredado por uma vida mundana.
A obediência, ao mesmo tempo que desmascara o mal, revela se há verdadeira fidelidade e amor a Deus. Naquele frade não havia. O contrário de Nosso Senhor Jesus Cristo que por fidelidade e amor ao Pai, submete-se a um escondimento de trinta anos, onde, em sendo verdadeiramente Deus, já poderia estar realizando milagres e prodígios, resgatando almas para o Pai, mas prefere obedecer por que assim aprazia ao Deus Todo Poderoso.
Assim, toda a vida de Jesus, da Anunciação ao Calvário, não foi, senão, pautada na obediência, e por isso o Apóstolo São Paulo vai deixar para a posteridade de todos os tempos essa realidade com letras garrafais quando em Fl 2, 8 diz: "E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz", para não deixar traço de dúvida de que o êxito da missão a que Nosso Senhor veio cumprir, deu-se pela via do amor e da obediência.
Torna-se, então, insofismável perceber que, se o exemplo do Senhor Jesus não for seguido, não haverá como se ter êxito missionário. Assim, trazendo-se para o contexto destes dias conturbados de epidemia, se somos chamados ao escondimento, ainda que possa ter sido engendrado por forças escusas, a permissão divina também se faz; desta feita, o que se pode fazer, ao contrário do frade anteriormente citado, é revestir-se de humildade para que a fidelidade que obedece possa sobressair.
Nada pior que "recalcitrar contra o aguilhão" (At 9, 5) já avisava o Senhor a São Paulo, pois na alma do Apóstolo debatia-se uma tentação para a desobediência que somente pôde ser vencida pela humildade e um sincero rebaixamento por amor a Deus.
O Senhor nos faça humildes, nos faça mansos de coração, venha em nosso auxílio com sua graça e envie o Espírito Santo afim de que a raiz maléfica do orgulho não faça sobressair o eu próprio que nos fará fracassar, mas que prevaleça o "fiat voluntas tua" de Nosso Senhor que nos fará triunfar como Ele triunfou.
Deus te abençoe em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

REFLEXÕES DE UM TEMPO DE QUARENTENA (PARTE 2)

Os materialistas já estão confinados!

A reclusão forçada, imposta pelo vírus, tem trazido, como já era de se esperar, angústia e apreensão há muitos cidadãos no Brasil e no mundo. e por quê será que se sentem tão mal estes, enquanto outros, apesar do desconforto, passam por esta prova com maior paciência e confiança, a despeito do clima de terror e histeria instalados?
A resposta a esta questão pode ser encontrada, ainda que não de forma explícita, na passagem bíblica que narra o encontro de Nosso Senhor Jesus Cristo com o jovem rico (Mt 19, 16-26).
Aquele jovem, ao interpelar o Senhor sobre, "O que devo fazer para ganhar a vida eterna?" (vers. 16), ouve de Jesus: "Observa os Mandamentos" (vers. 17), e ante a resposta, o jovem retruca: "Isso já faço desde a minha mocidade!" (vers. 20); então Jesus vai a fundo e exorta: "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá aos pobres, e terás um lugar no Reino dos céus!" (vers. 21).
Impactado pela proposta desafiadora, o jovem antes cheio de si, vê-se desarmado e decide-se por recusar dando as costa ao Senhor e saindo com semblante triste (vers. 22).
O que se observa neste interregno? O que se pode refletir dessa passagem? Um jovem, que representa qualquer cristão, vem a Jesus com um desejo: a vida eterna; no entanto, trazendo atrelado a si seus apegos mundanos que tanto lhe dão prazer, satisfação, alegria. Ele se mostra praticante dos Mandamentos, ou seja, ligado às coisas divinas, porém, não menos ligado às superfluidades, às fugacidades e ao materialismo dessa vida.
E eis que Nosso Senhor, conhecedor de todos nós nas suas minúncias, percebe tal realidade e vê que esses laços materialistas, essa prisão ao que perece, necessita acontecer. Daí ser imperioso o remédio que para a alma apegada, aprisionada, se faz, na maioria das vezes, deveras amargo, mas necessário; e este remédio é a Verdade.
O jovem se depara com duas verdades: a primeira, que não está tão apto assim ao céu, visto que os Mandamentos são fundamentais, mas sem verdadeiro amor se torna mero cumprimento legalista e que pode ser desobedecido em algum momento; segundo, que a causa é o apego às coisas materiais que geram orgulho por que são fruto do esforço pessoal.
Jesus, então, quando o desafia: "Se queres ser perfeito...", o faz no sentido de trazer ao jovem a realidade de que a vida eterna não é alcançada aprisionado às coisas materiais, sendo, assim, imperioso desapegar-se. Feito isso,  vai apegar-se, agora, a Deus que é prazer, satisfação, alegria em plenitude e sem fim. Além disso, fazer perceber que esse ato não acontece sem o auxílio da graça, de uma ação do próprio Jesus que deixaria claro em outro momento quando afirma: "Se o Filho do Homem vos libertar, vós sereis verdadeiramente livres" (Jo 8, 36).
Infelizmente, o jovem preferiu continuar preso, confinado ao seu materialismo em vez de dar um passo na direção da verdadeira liberdade que trás paz e alegria á alma.
Assim, os que se encontram inquietados e apreensivos em virtude deste claustro forçado, assim se encontram por que não gozam , ainda, da liberdade da alma, pois esta, uma vez livre, não se deixa aprisionar, pois prisão muito mais gratificante á experimenta agora, e futuramente, pelos séculos dos séculos: a presença viva de Nosso Senhor Jesus Cristo reinando na sua vida e no seus coração.
Estes dias difíceis possam promover muitas libertações e que jesus seja a verdadeira alegria para estas almas de jovem rico, tão cheias de si, tão vazias de Deus e tão necessitadas de vida nova.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo. 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

REFLEXÕES DE UM TEMPO DE QUARENTENA (PARTE 1)

"Eis que voltou muito mais forte"

"Após ser batizado, o Espírito Santo conduziu Jesus ao deserto, onde passou quarenta dias e quarenta noites sem nada comer, nem beber..."
Deus nos conduz, o céu nos conduz, que ledo engano imaginar, aventar a ideia que, realmente, caminhamos por este desterro (como dizia Santa Tereza D'Ávila), sem que estejamos sobre a influência, seja da nossa vontade humana, seja de uma vontade espiritual.
As Sagradas Escrituras, principalmente os Evangelhos, deixam, de forma insofismável, evidenciado que se pode ser conduzido por ação sobrenatural de Deus ou do seu inimigo;  por Deus para objetivos que visam o bem, pelo inimigo para ações que visam o mal.
O Senhor Jesus foi conduzido ao deserto, e ali, nas adversidades do clima, da escassez de água e alimento, na ausência de distrações e até de companhias para compartilhar o momento, ainda teve que deparar-se com as investidas do inimigo.
Dias de luta, um embate onde o convite a agir como Deus, a tentar Deus, foi o que passou o Senhor. E o que o fez resistir? As virtudes. A fé e a esperança que avivadas e alimentadas pela caridade não deixaram Jesus vacilar no firme propósito de glorificar ao Pai, renegando qualquer confiança em si, mas depositando toda ela no Deus Todo Poderoso demonstrando, e deixando como ensino luminoso, que na humildade de rebaixar-se à Majestade, realiza e poder do Deus Altíssimo, sobressai-se sobre a soberba do astuto adversário. 
O que colheu Jesus desse tempo adverso? Voltou do exílio muito mais forte como bem explicita a Palavra: "Jesus, então, cheio da força do Espírito Santo, voltou para a Galileia. (...)." (Lc 4, 14)
Esse exemplo de Nossa Senhor Jesus Cristo lança luzes maravilhosas envoltas numa verdade indelével: "Toda prova vivida com fé e esperança, envolta na humildade, e alimentada na caridade, fará emergir nessa alma uma força antes desconhecida, capaz de produzir maravilhas de caridade para o outro e para si. E isso por quê? Por que essa "força" a brotar é a presença viva Daquele a gera: o próprio Senhor Jesus por meio do Espírito Santo.
Por isso que esse tempo de confinamento, de quarentena, certamente conduzido pela permissão de Deus, se bem aproveitado e vivido pelas almas que se deixam sair do mero materialismo e busca o sentido espiritual dos acontecimentos, certamente, colherá os frutos deste tempo contrário, mas necessário, por que, verdadeiramente, "não se valoriza tanto algo, quando se vê a perda, em possibilidade, da perda, daquilo que se quer bem".
O Senhor não quer nos perder, logo, que este tempo sirva para percebermos que, também nós, não desejamos nem queremos perdê-lo, pois o mundo e suas ilusões irão passar de qualquer maneira, porém, terrível é passar a vida eterna e a graça de um céu de felicidade junto à Trindade Santíssima e nossa Mãe Bem-Aventurada.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A alma é solo, necessita ser cuidada!

A alma é uma realidade maravilhosa e misteriosa, uma presença que, ainda que não palpável no sentido tátil, é tão concreta quanto tudo que se pode tocar e qualificar, pois esta mesma pode, dependendo do seu estado, se ver áspera ou polida, grosseira ou delicada, robusta ou lânguida, densa ou esmaecida, doce ou amarga...
A alma é essa porção tão paradoxal de cada um que não a vemos, mas sentimos; não a tocamos, no entanto, podemos adorná-la com belezas provenientes das virtudes, ou desfigurá-la com a prática dos vícios, paixões e outras desordens.
Também ela não é passiva, pois, ao que se dedica a ela, claramente, percebe suas interpelações, seja para o bem, - se assim é estimulada -, seja para o mal (se da mesma forma é conduzida). De certo é que, se ela se agrada do "alimento" que lhe é proporcionado, mais exigirá do mesmo, e assim vai tomando corpo.
Nosso Senhor Jesus Cristo, de certa forma, deixa a crer por certa estas constatações quando refere-se, metaforicamente, à alma como um solo (um campo). E pode-se ver isso em algumas passagens como a da parábola do semeador (Mt 13, 1-9) quando diz: "O semeador saiu para semear. (...). Outras, enfim, caíram na terra boa e deram fruto: cem, sessenta ou trinta por um. Quem tem ouvidos, ouça!".
Noutra passagem conta que "O Reino dos Céus é como um tesouro escondido num campo" (Mt 13, 44) ; e em outro conta de um agricultor que, ao escutar de Deus a decisão de cortar a figueira existente no meio da sua vinha, clama ao Senhor pedindo: "Senhor, deixa-a ainda este ano. vou cavar em volta e pôr adubo. Pode ser que venha a dar frutos; caso contrário, tu a cortarás" (Lc 13, 8).
A nossa alma, como um campo, estará pronta  e em condições para gerar frutos quanto mais ela se veja cuidada pelos seus agricultores, com a água e o adubo que a permitam tornar-se fértil para assim acolher a "semente" da Palavra que trás em si a "árvore da fé" que gera os frutos de conversão e do amor ao Pai.
A alma sem esses cuidados, e vendo-se desprezada desses compostos essenciais, ver-se-á inane, estéril e sem valor, incapaz de gerar árvores de boa cepa, produtora de frutos bons e agradáveis; isso trará como consequências da parte do patrão a irritação e uma decisão extrema, como mostra Jesus na passagem da figueira estéril acima citada.
todo o que busca em Jesus, por intermédio da Santa Igreja (a grande agricultora) a fidelidade aos Mandamentos, a obediência à Palavra e a vivência dos Sacramentos, além do amor e prática da oração, verá este solo ressequido mudado de conformação, e assim, as sementes que no solo do teu coração foi depositada, não se estragarão, pois nele habitam todas as condições necessárias.
A alma tratada com a água e o adubo do Espírito Santo produz fruto agradável ao Senhor, como no caso de Abel que agradou ao Criador com a oferta amorosa das primícias do fruto da terra e de sua alma cheia de amor a Deus; contrariamente, Caim teve sua oferta rejeitada, pois não era o melhor que ofertava, mas o resto.
É no solo da alma que se dão os embates mais renhidos entre o bom e o mau patrão; o semeador do trigo e o do joio, o bom Pastor e o Lobo, ou seja, entre Cristo e Satanás, e para que a parte boa que é Jesus prevaleça é fundamental a ação decisiva do Espírito Santo. Ele é que é capaz de transformar o solo das almas, com seus mais variados matizes (coléricas, sanguíneas, melancólicas, fleumáticas), como a dos Apóstolos, por exemplo, em almas excelentes e ricamente geradoras.
Puras e santas, fervorosas e caridosas, devotadas e entregues, abandonadas à suprema vontade do grande Agricultor são as almas que produzirão até mais que cem por um. São almas que, a exemplo do Mestre, serão capazes de subverter a lógica como na multiplicação dos pães onde foi capaz de alimentar cinco mil com apenas cinco pães e dois peixes.
A alma é, então, presença real que se deve cuidar, zelar, respeitar e santificar, pois, afinal, ela é uma porção do próprio Deus que nos faz viventes, pois Ele é vivo; amantes, por que Ele é amor; desejosos de ser feliz, porque Ele é a felicidade; buscadores da santidade, porque Ele é Santo; aspirantes ao Céu, porque Ele tem no Céu a sua habitação.
Isso indica que lançar a alma no total descaso, relegá-la a uma condição tal que afronte a Deus com sua corrupção, é saber que a paga não será das melhores, mas o castigo eterno, visto que se alma é exposta aos mais vis pecados, impedindo que se torne uma só com o Criador, viverá pela eternidade, a consequência de não desejar ser toda de Deus, mas, egoisticamente, ser toda de si mesma.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

"Precisamos ser trigo (doação)

"Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto." (Jo 12, 24). Assim ensinava o Senhor Jesus Cristo aos discípulos, demonstrando a clara necessidade de que a boa semente, o excelente grão, é aquele que será capaz de morrer para que possa, então, gerar novos grãos.
A metáfora do grão de trigo utilizada por Nosso Senhor é preciosa em todo o ensinamento nela contido, pois na figura do grão estão demonstrados elementos que são imperiosos para que todo o itinerário espiritual aconteça de maneira exitosa.
Assim, Jesus demonstra que, para que haja um grão a ser colhido, deve haver um grão a ser plantado; e para que seja plantado, faz-se necessário que esse grão seja de boa qualidade; e a boa qualidade é resultante de uma boa planta, que foi cuidada, regada, adubada; mas para que haja boa planta , há que se tenha um bom terreno, um bom campo, de terra fértil.
A alma, então, é esse campo que necessita dos cuidados necessários para tornar-se apta, e isso se dará com a limpeza do joio e outras ervas daninhas que representam os vícios e males que tornam esse terreno inviável.
Terreno limpo pela libertação de todo pecado, agora tem-se a necessidade do "adubo" da irrigação, que serão obra do Espírito Santo. Findo esta preparação é hora do semear, e a semente, o grão excelente é a Palavra de Deus que caindo neste solo preparado não demora a germinar e irromper da terra com seus primeiros traços, jovem, é verdade, mas já cheia de vigor e disposição para tornar-se planta vigorosa.
A medida que cresce, amadurece e torna-se de um dourado cheio de formosura, os campos cheios dela tornam-se de um dourado quase esbranquiçado e o romper dos cachos, carregados de grãos dispostos numa organização simétrica que encanta os matemáticos, agora se mostram prontas ao próximo ato.
E o ato seguinte é a colheita, onde o ceifador terá que apresentar extrema habilidade em não demasiar na força do corte afim de que os grãos não se percam.
Colheita realizada, grãos separados do restante da planta, é hora de tomar destino: ou tornar-se-á pão, e para isso imperioso se faz que seja triturado, moído, afim de tornar-se farinha, elemento principal para que o alimento exista; ou tornará ao seio da terra para, ali morrendo, ressurja como nova planta que gerará muito mais grãos.
Essa epopeia do grão de trigo trás em seu bojo uma verdade: necessário se faz a doação, a entrega total de si. É o que aconteceu com Jesus que se fez modelo para os seus discípulos e para a Igreja vindoura, onde, sendo Ele o grão mais perfeito entre todos, permite-se, ao mesmo tempo, ser triturado pelas dores da Paixão para tornar-se o Pão da Vida (Jo 6, 35. 48)na presença real da Eucaristia, bem como voltar ao solo, ser enterrado para brotar vivo e majestoso na sua Ressurreição.
A atitude do Senhor trouxe-nos justificação e paz com Deus (Rm 5, 1). A firme decisão de imitá-Lo, permitindo que nos conduza como grãos gerados a partir da Sua Palavra e do Seu Santo Espírito, a nos deixarmos morrer para a nossa vontade, nos trará salvação: "Porque o que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, irá salvá-la. (Mc 8, 35)
Os egoístas, apaixonados por si mesmos, serão grãos inúteis que definharão e se tornarão imprestáveis. Os altruístas, apaixonados por Jesus, serão grãos excelentes que se restabelecerão a cada colheita, pois o amor não passará jamais.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

"Eles não tem mais vinho" (Jo 2, 3)

Um casamento, uma festa, convidados, celebração, comida, bebida...alegria. Tudo corre bem, e assim deveria continuar por sete dias, visto que era a tradição da época, afinal, a necessidade de comemorar  a felicidade daquele casal não poderia se resumir a um dia, apenas.
Eis que, então, um dos elementos constitutivos do cerimonial está a findar-se, e quão vergonhoso será para os nubentes mirar os convivas a questionarem-se: - Onde está o vinho?; e envergonhados terem dizer: -"Acabou!".
Obviamente, que a preocupação acometia os auxiliares da festa, à exceção de uma convidada ali presente: a Santa Mãe de Jesus, que também se encontrava presente com seus discípulos.
E esta atenta mãe, que terá no futuro justamente esta missão: perceber as angústias e necessidades dos seus filhos e pôr-se em auxílio, acorre Àquele que sempre terá a solução para os embaraços e agruras dos filhos de Deus, com o intuito de que a alegria não se mude em embaraço e tristeza, mas permaneça e siga acontecendo.
No entanto, aquela festa, aquele casamento se dão meramente num contexto humano, carnal, o que enseja crer que tudo se move em torno de um prazer fugaz, que tem princípio, meio e fim, e que vendo os dirigentes que o fim poderia precipitar-se antes do tempo devido inquietam-se.
Entra, então, em ação as realidades divinas que, percebendo o que dramaticamente se passa, vem em socorro, não para que tudo siga seu roteiro normal, mas para ensejar uma nova dinâmica, e elevar a uma nova significância o que até ali se dava.
Nova significância no sentido de compreender que, apesar do que ali acontecia ter um cunho religioso, o louvor de Deus e a glorificação do Senhor não estava no contexto, mas unicamente as satisfações puramente humanas dos que ali se congrassavam, tanto que Jesus e Nossa Senhora não passavam de mais um na multidão. O vinho que estava para acabar tinha lugar mais privilegiado.
Esse vinho é o prazer deste mundo, que se denota em outros prazeres também, que tem em comum o fato de que em dado momento cessarão, e quando acabarem virá a angústia e desespero, e neste momento o céu entrará em ação por meio da Igreja, que vem para oferecer um vinho melhor: Jesus Cristo, em cuja presença e ação a alegria não será momentânea, mas perene.
Jesus sendo "o vinho melhor" ensejará um novo contexto, onde essa festa tem começo (a partir do seu convite a aceitá-Lo), meio (a medida que se deixa ser tornado noiva apta e adequada para Ele), e sem fim (pois no céu o Esposo desposa a esposa por toda a eternidade).
Maria Santíssima, a responsável por conduzir as noivas ao Noivo, que com olhar maternal atento às almas que estão ficando sem "vinho" (sem fé, sem esperança, e sem Deus), ajude a cada um com sua intercessão rogando ao Noivo: "Eles não tem mais vinho", "Eles não tem a ti, meu Filho!".
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.