domingo, 25 de agosto de 2019

"Por causa da Tua Palavra..." (Lc 5, 5)

As Sagradas Escrituras estão repletas de passagens que demonstram que o Senhorio do Pai, assim como o do Filho, são exercidos, principalmente, na força da Palavra.
O Gênesis inicia-se com a Criação onde Deus produz toda a sua obra a partir de um "Faça-se...", ação que será exaltada pelo Salmista ao dizer: "Ele disse e tudo foi feito, Ele ordenou e tudo existiu" (Sl 32, 9). Este senhorio evidencia-se, nesse caso, de fazer algo vir à existência a partir do nada com estrutura e funcionalidade perfeitamente determinados.
Tal prodígio é exaltado pelo profeta Isaías ao declarar: "Assim acontece a Palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido a sua missão." (Is 55, 11), daí o Apóstolo São Paulo também declarar: "Por que a Sua Palavra é digna de aceitação." (1 Tm 1, 15 ). Assim, o Senhorio de Deus e a Sua Soberania se exercem sobre o poder eficaz da Sua Palavra, pois tem ação eficaz, insofismável e inexplicável sobre todas as coisas.
Na ação da Palavra de Deus portentos foram realizados e impressos nas Escrituras: Moisés extrair água da rocha (Ex 17, 6); Elias fazer descer fogo do céu (1 Rs 18, 36-38)...No Novo Testamento Jesus muda água em vinho (Jo 2, 1-11); cura dez leprosos apenas com uma ordem (Lc 17, 12-19); acalma uma tempestade (Mc 4, 35-41), ressuscita um morto há quatro dias (Jo 11, 1-44)...
Jesus evidencia a força da Palavra de Deus ao concluir seu Sermão da Montanha quando diz: "Todo o que ouve a minha Palavra e a põe em prática é como o homem sensato que edificou a casa sobre a rocha..." (Mt 7, 24-25)e aqui o Senhor explicita a Palavra como "fonte segura", certeza e não como possibilidade; faz dela digna de ser acreditada, daí a irritação do Senhor com os fariseus quando percebe a descrença, a incredulidade daqueles homens, mesmo testemunhando tudo o que o Senhor realizava.
Por isso não haver nenhum outro "deus" que se equipare ao Deus único e verdadeiro, pois nenhum foi ou será capaz de realizar tais prodígios. O poder dessa Palavra tem a capacidade de transformar vidas, como fez com Pedro na passagem da pesca milagrosa (Lc 5, 1-11) onde ao receber a Palavra de Jesus que ordenava: "Lançai as redes..." (vers. 4), ao fazê-lo recolhe-a abarrotada de peixes.
O rude pescador fica tão impactado com o que testemunha que ao constatar que diante de si está alguém tão poderoso, lança-se aos seus pé dizendo: "Afasta-te de mim Senhor, por que sou pecador...". Pedro era rude, mas humilde. E se hoje não se constata a Palavra de Deus realizando estes maravilhosos sinais e milagres é por que, talvez, o homem de hoje, empanturrado de orgulho e vaidade, já não acredita como Pedro acreditou, não crê como ele creu, não confia como ele confiou, e já não lança as redes por que prefere, antes, discutir, objetar, argumentar a ordem recebida.
A Palavra de Deus tem sido relativizada, criticada, desprezada e até deturpada porque, na verdade, o que se passa é uma descrença e abandono da fé, fé que não questiona ou contemporiza, mas obedece.
A pouca fé tem levado a muitos a ousarem "adaptar" a Palavra de Deus afim de que ela atenda aos seus gostos pessoais, com isso acrescentam ou retiram irresponsavelmente. A este, Jesus deixa o aviso: "Ai daquele que ajuntar.. ou retirar qualquer coisa, Deus lhe tirará sua parte da árvore da Vida..." (Ap 22, 18-19).
Somente se alcançará boa pesca, colherá bons frutos, obterá grandes graças se, a exemplo de São Pedro, respondermos ao Senhor com igual confiança: "Por causa da Tua Palavra..." (vers. 5) e o melhor fruto dessa crença é conversão e salvação.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 23 de dezembro de 2018

"Nasceu para vós..."

Grande Mistério é o Natal de Jesus, e por isso tão incompreensível à quase totalidade dos corações. E por quê? Por que não se poderá compreender a real mensagem contida neste acontecimento sem antes exercitar aquilo que o próprio evento nos exige: humildade.
Humildade manifesta no próprio ato da natividade, onde o Cristo Eterno e Todo-Poderoso, Criador com o Pai e o Espírito Santo do céu e da Terra, o Alfa e o Ômega, o Deus infinito, aceita rebaixar-se, diminuir-se, apequenar-se, fragilizar-se, dar-se a cuidar, a deixar de ser necessário para ver-se necessitado.
Eis o princípio e a condição para que o Natal de Jesus possa ser bem vivido e assim tornar-se fecundo e frutuoso: a humildade. Refletir a humildade do Menino-Deus é imperiosa para que esse tempo não passe por nós como mais uma data comemorativa, vivida de forma superficial e exteriorizada, regada por uma alegria fugaz e transitória, e que em nada realizará seu propósito: mudança de vida.
O contrário deveria ocorrer, ou seja, o Natal de Jesus deveria ser vivido de forma profunda e interiorizada, com uma meditação mergulhada nos elementos, sinais e palavras contidos no contexto do nascimento do Senhor.
Dentre esses tantos elementos descritos na narrativa bíblica destacam-se as palavras do anjo aos pastores quando a eles proclama: "Dou-vos uma boa notícia, uma grande alegria (...) nasceu para vós (...) o Salvador" (Lc 2, 10-11). Nesta proclamação cala ao coração este trecho: "nasceu para vós", pois nesta frase a humildade se mostra tácita: Ele não veio para seu louvor, para sua exaltação...veio para nós. E quem somos nós para merecer tanto? Merecer a vinda do Filho de Deus?
Perceber que Jesus veio para mim deveria ser motivo de júbilo, de comemoração, pois a mensagem é clara: Deus se importa conosco; somos importantes para Ele! No entanto, quantos corações se entristecerão naquele dia por que não haverá uma bela ceia; o presente tão desejado não aconteceu; a companhia tão aguardada não veio; prevalecerá a lembrança do ano frustrante, os inúmeros revezes, e o coração que deveria fazer festa por que a salvação veio se cobrirá de lamúrias por que os anseios não se fizeram a contento.
Somente a humildade revela a verdade, por isso que Santa Tereza D'Ávila dizia: "A humildade é a verdade", e que seja ela a nos preparar nessa expectativa para que naquela noite feliz os corações e lábios louvem e exaltem agradecidos a Ele que veio, e veio por nós.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A força do ouvir

Quando o salmista declara: "Uns põe as forças nos carros, outros nos cavalos nós a temos no Senhor" (Sl 19, 8), certamente, está a rechaçar a confiança que se deposita no vigor físico, nas capacidades intelectuais, na excelência da razão..., que não são desprezíveis, diga-se, mas deixa inteligível que ao depositar no Senhor o poder da solução dos desafios, algo a mais este Deus possui, e recomenda.
Davi reconheceu, então, ser necessário para que haja êxito nas batalhas (e no texto deixa claro tratar-se de guerra contra outros povos!), no entanto, aplica-se, fidedignamente, às espirituais, principalmente na alma, ter-se em mente duas verdades.
A primeira está no total desprezo do confiar-se em si mesmo, ainda que portador de grandes capacidades (como era Davi; exímio guerreiro!), mas abandonar-se totalmente nas mãos de Deus, reconhecendo-se incapaz do que quer que seja, daí compreender-se a passagem de Êxodo quando os israelitas, liderados por Moisés, guerreiam contra Amalec.
A narração bíblica diz que Moisés sobe a uma montanha e quando mantinha os braços erguidos venciam, mas quando baixava os braços Amalec  prevalecia. O comportamento de Moisés demonstra que erguer os braços indica dependência e busca de auxílio, pois assim comportam-se as crianças quando buscam o socorro dos pais. Portanto, frutificar é rebaixar-se.
Em segundo, o salmista ressalta o valor do ouvir, e quem enfatizaria essa condição de forma taxativa, foi o descendente de Davi, o Rei dos reis, Jesus Cristo que em várias passagens do Evangelho explicita esta exigência, e uma dessas está na conhecida passagem da parábola do semeador (Mt 13, 1-23) onde o Senhor diz que o coração que é "terra boa" é aquele que "ouve a Palavra e a compreende, e gera frutos." (vers. 23)
O poder do ouvir na relação com Deus é questão basilar para a vitória em qualquer "batalha", visto que somente Deus tem a medida, a intensidade, a direção, a estratégia correta. A Palavra de Deus é perfeita, viva e eficaz (Hb 4, 12), como bem ressalta São Paulo, daí ser digna de crença, por isso que souberam combater e vencer aqueles (as) que aprenderam exercitar os ouvidos (da alma), mas que os músculos, ou o intelecto, Moisés o diga, Davi o diga, Gedeão o diga...Portanto, frutificar é ouvir.
O ouvir de Pedro lhe rendeu uma grande pescaria, e ouvir dos empregados das bodas de Caná rendeu o melhor vinho; o ouvir de Abraão rendeu-lhe uma descendência...o ouvir a Jesus renderá uma coroa de vitória e a eternidade.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Um Éden ou um Getsêmani?


Encontra-se Jesus no Getsêmani após sua agonia que o leva a suar sangue quando volta aos discípulos e diz: “Levantai-vos, vamos! Aquele que me trai está perto daqui” (Mt 26, 46). Em seguida, dá-se a sua prisão por meio de um ato de traição já declarado pelo Senhor Jesus que aconteceria ainda durante a Santa Ceia (Mt 26, 21), e por quem se daria.
Narra a Escritura Sagrada que “O traidor combinara com eles este sinal: “Aquele que eu beijar, é ele. Prendei-o!”. Aproximou-se de Jesus e disse: “Salve, Mestre”. E beijou-o.” (Mt 26, 48-49). Neste instante, o Senhor é preso e seguir-se-á toda sua via-crucis que se encerrará na cruz.
O que trás a reflexão esta triste passagem é constatar-se, então, que Jesus se reporta ao Éden, onde o Pai do Céu, em todo seu amor para com o homem, tem este amor traído, desprezado, rejeitado. Ali, dá-se o início do calvário humano que a partir de um ato de desobediência, fomentado pelo inimigo de Deus, cede à beleza e atrativo do fruto proibido e, assim, peca, e morre, mas antes sentirá a dor de tal desprezo, de tão equivocada opção.
Judas é, não somente Adão, mas todo homem de todos os tempos que tendo conhecido o Amor, prefere deixar-se seduzir, não mais por um “fruto”, mas por “trinta moedas” que proporcionam, igualmente, mesma beleza e atrativo. No Getsêmani o Amor é novamente traído e mandado à morte, tendo que passar por dores e sofrimentos atrozes.
O questionamento que se faz, mediante saber-se que o ser humano, na sua imensa maioria, ainda se porta como “judas” perante o amor de Deus, é esse: onde fica o nosso getsêmani? Não há dúvidas que este lugar é alma humana. Ali reside o lugar do conflito, do combate; é o lugar das escolhas cabais que determinarão nesta vida e, principalmente, na futura o resultado das escolhas que se fará, espiritualmente falando.
No campo da alma tem-se de um lado um Deus de amor que nos pede que o amemos, sigamos, sirvamos e obedeçamos; do outro, um inimigo que nos incita a agir contrariamente, fomentando um egoísmo que nos impele a que nos amemos, nos sigamos, nos sirvamos, nos obedeçamos, nos agrademos: é o que se chama amor próprio, o amor de si mesmo que rechaça todo é qualquer abandono e entrega ao amor de Deus.
Envolvidas por tal situação não haverá outra decisão, senão de em algum momento trair o amor de Deus, e essa alma torna-se assim, getsêmani, lugar de desolação, lugar do abandono de Deus, lugar de condenação do Amor Maior.
No entanto, existem aquelas que por mais tentadas que sejam, ainda que por vezes durma seu “sono negligente e indiferente” enquanto Jesus sangra de aflição (Lc 22, 44-46), estas desejarão permanecerem ao lado do amor; nestas, Jesus trabalhará, aperfeiçoará este amor e alcançarão a perfeição. Sua alma será como que o primeiro Éden onde Deus vinha entreter-se com suas criaturas (Gn 3, 8), estas almas preferem, antes elas o calvário, a trair o Amor Maior por isso são almas cheia de consolação e alegria, ainda que entre sofrimentos.
Uma outra pergunta se faz, então: o que desejar? O que optar? Trair o amor de Deus e vê-se uma alma “getsemânica”? Ou acolher o amor de Deus e vê-se uma alma “edênica”? O Pai já punha esta escolha perante o povo de Israel durante a peregrinação no deserto ao exortar: “(...) ponho diante de ti a vida e a morte, a benção e a maldição. Escolhe, pois a vida, para que vivas com tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a Ele.” (Dt 30, 19-20). Fazer a segunda opção, é não só desejar um “éden” nesta vida, como o “Éden Eterno”, o Céu.
Logo, há uma escolha a ser feita, e que não pode se dar a toque de arroubos, afetações, a custa de imposições ou ameaças, mas deve ser fruto: primeiro de uma decisão; e se essa decisão é por Jesus,  em segundo uma ação, ação da Graça, do próprio Jesus que vem em auxílio àqueles que o pedem para cooperar consigo, e Ele, prontamente, as ajudará. Qual a sua opção?
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Maria, o Solo santo onde está o Tesouro sagrado

O Senhor Jesus Cristo em seus Evangelhos, ao menos em duas de suas pregações, faz menção ao Reino dos céus comparando-o a um tesouro, como se pode observar no Evangelho de São Mateus capítulo seis, versículos de dezenove a vinte e um, e no capítulo treze, versículos quarenta e quatro e quarenta e cinco.
Na primeira citação (Mt 6, 19-21), Jesus recomenda não ajuntar tesouros na terra, mas no céu, pois lá não perecem, mas duram pela eternidade. Na segunda citação (Mt 13, 44-45), compara o reino dos céus a um tesouro escondido no campo e a uma pérola preciosa onde os que o (a) encontram vendem tudo para possuí-lo (a).
Mediante estas duas passagens o Senhor deixa evidenciado que h´um tesouro de grande valia, de valor incalculável, de qualidade inquestionável, mas que não é ouro nem prata, nem pérola ou diamante..., mas trata-se do próprio Cristo: Ele é a jóia preciosa, Ele é a riqueza maior, Ele é o Reino de Deus em esplendor e glória.
Tesouro que, infelizmente, é desperdiçado, ou mesmo desprezado por aqueles que não aderindo à sua mensagem, não O crêem e, por isso, não O aceitando, preferem preterí-lo em detrimento dos "tesouros" desta vida (dinheiro, riqueza, fama, poder...) que são aqueles que a ferrugem e as traças corroem, visto que sendo de qualidade inferior não subsistem, assim como também são alvo dos ladrões, pois não havendo lugar seguro que os proteja serão facilmente afanados.
São os "tesouros" que, a princípio, alegram o coração, suscitam euforia, mas que são incapazes de sustentar esse sentimento por longo tempo, sem contar que são "tesouros" conquistados, às vezes, de forma expúria e pecaminosa (roubo, corrupção, violência...) o que os torna ainda menos valiosos.
O inverso disso é o Tesouro maior: Jesus Cristo; este a traça e a ferrugem não corroem, pois sua qualidade é insuperável, além do que aqueles a quem Ele se dá a ter, nada, nem ninguém o rouba. Jesus é o Tesouro que suscita alegria permanente, que não se desvanece, muito pelo contrário, cresce exponencialmente à medida que mais o desejamos.
É, também, o Tesouro que só se conquista pela fé e pelo amor, a partir de uma busca fiel e incansável como o fizeram os homens da parábola. E quem pode cooperar para que o encontro desse Tesouro possa acontecer é Maria Santíssima.
E por quê? Por que indubitavelmente ela é o "campo" mais real, mais fidedigno, com ampla certeza de que lá se encontra o Tesouro, a pérola que é seu Filho amado, pois se a procura em outros "campos" o resultado pode ser nenhum, ou um "tesouro" de má qualidade, no campo do coração Imaculado de Nossa Senhora apenas um tesouro encontra-se encerrado: Jesus.
Esse Tesouro primeiro esteve encerrado no seu ventre santo por nove meses; hoje está encerrado no seu Coração Imaculado, este coração que declarou Nossa Senhora em Fátima aos santos pastorinhos que ao fim de tudo triunfará, e com ela todos os que nele, e por meio dele, encontraram Jesus.
Desta forma, fica patente que existe um lugar insofismável onde todo aquele que verdadeiramente deseja encontrar Jesus, o grande Tesouro, a Pérola preciosa, o Reino dos céus, o encontrará em Maria, pois nem antes, nem depois Dela haverá outro "campo" mais santo, mais sagrado, mais amado, mais apropriado do que Maria, o Sacrário de Deus.
Encontre Maria , e encontrará Jesus, pois assim como o campo não pode dar-se a si mesmo, mas o tesouro que gera, Maria Santíssima só tem a capacidade de dar Jesus a todo o que dela se aproxima. Logo, não existe mariolatria em buscar a Mãe de Jesus, pois na sua perfeita humildade e caridade, aos moldes da pobre viúva que deu a única moeda que possuía e (Lc 21, 1-4) e foi louvada por Jesus, Nossa Senhora dá-nos tudo o que possui: Jesus a nossa salvação.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Tesouro.

domingo, 11 de junho de 2017

Os aptos para a festa

O Senhor Jesus Cristo, ao contar a parábola da festa das bodas (Mt 22, 1-14), onde um rei manda seus servos aos convidados, no entanto, os mesmos recusam, levando o rei, então, a decidir por convidar para a festa todos os que se pelos caminhos, trás ao contexto da estória um detalhe: alguém que estava na festa, porém, sem vestes adequadas (vers. 11).
Esta pessoa, em sendo identificada sem as "credenciais" necessárias é retirada do recinto e lançada fora da festa o que trás à tona um questionamento: por quê que se já estando na festa não se encontrava apto?
A explicação deve se dar a partir da compreensão de que este rei da parábola, que é Jesus, "vem para os seus" (o povo de Israel), com está evidenciado em Jo 1, 11; no entanto, "...os seus não o receberam", recusaram sua mensagem e, principalmente, a ideia de ser ele o Messias.
Daí, então, a mensagem salvífica se expandir para o mundo inteiro, logo, todos os povos, raças e nações são bem vindos a fazer parte desta "festa", desta celebração, deste banquete, que se inicia aqui nesta vida, mas terá seu ápice mesmo no céu.
A parábola deixa evidente que todo gênero humano é convidado, ou melhor, chamado a estar junto com o rei e dono da festa, no entanto, não poderão adentrar de qualquer forma, com qualquer traje, sem convite, sem ser pela porta principal, às escondidas.
Faz-se necessário que, primeiramente, haja uma adesão a este Rei, e isto acontece a partir do sacramento do Batismo, onde, pela fé, eu o acolho e a Ele me faço pertença. Nesta adesão recebe-se vestes novas, semelhante ao que se passa com o filho pródigo (Lc 15, 22), que não adentra à casa do pai sujo e mal vestido, da forma que chegou. Vestes semelhantes, também, às mencionadas no livro do Apocalipse (Ap 7, 13) onde aparecem pessoas com vestes brancas, que "...lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro", ou seja, pessoas que buscaram purificar-se de todo tipo de males, principalmente, no sacramento da Reconciliação.
É fato, também, que, além das vestes, é necessário um "convite" que lhe dê acesso. Esse "convite" chama-se caridade, pois é o próprio Senhor Jesus que a expõe em várias passagens como meio imprescindível a todos que a salvação desejarem alcançar. Isto está patente, em primeiro, Nele mesmo, quando de sua Paixão e morte, onde ali se vê o mais supremo ato de caridade: doar-se, por amor, até o ponto de dar a própria vida; e isto já estava evidenciado na sua pregação quando diz: "Porque o que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por amor de mim, irá salvá-la" (Mc 8, 35).
Por isso que o Apóstolo São Paulo em 1 Cor 12, 31 evidencia a caridade como sendo o dom superior , em 1 Cor 13, 13 como sendo a maior das virtudes; semelhantemente o Apóstolo São João quando diz: "Nisto temos conhecido o amor: Jesus deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos" (1 Jo 3, 16).
Aquela pessoa encontrada entre os convidados, se ali estava, é porque tinha aceito o convite, assim como na Igreja existem tantos batizados que aceitaram o "convite"; no entanto, como aquele personagem que não tinha as "vestes" adequadas, entre os batizados há ainda muitos que não tem buscado buscar trajar-se com vestes purificadas, que ainda relutam em branquear suas roupas. Também como aquela pessoa que não portava "convite", muitos ainda relutam, pela falta de vivência da caridade, conseguir seu bilhete, seu passaporte de entrada na festa eterna.
Este estranho pode ser, ainda, aqueles que se julgam plenamente aptos, envaidecidos por acharem que por cantarem, pregarem, louvarem, fazerem algo na Igreja, já estão entre os "garantidos". Jesus também se  refere a estes quando diz que na glória ao encontrá-los dirá: "Não vos conheço" (Mt 7, 23), pois como Ele mesmo adverte: "Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus...".
A verdade, portanto, é que existe um lugar com uma festa preparada, onde somente adentrarão os aptos, os que se tornaram dignos, que não desleixaram, nem se ensoberbeceram, mas com humildade permitiram o Senhor torná-los aptos para este maravilhoso e eterno momento reservado para os que ouviram a sua voz e obedeceram.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Famílias, venham para fora!

Findou-se mais um tempo Pascal, um tempo propício de reflexão, oração e tomada de decisão por uma mudança de vida, uma decisão por conversão.
Toda a cristandade é conclamada a viver este tempo com intensidade e propósito sincero; no entanto, o que mais se observa são cristãos que chegam ao Domingo de Páscoa da mesma maneira que antes da quarta-feira de cinzas: descompromissados, despreocupados, desinteressados no rumo a que tem dado à sua própria vida, e assim, um período que deveria ter sido aproveitado com toda intensidade é relaxado e menosprezado.
Desta forma, o que se continua a observar são homens e mulheres, jovens e adultos, famílias em geral chegando ao Domingo da Ressurreição vivendo a triste realidade dos seus “sepulcros” pessoais. Por isso ser a passagem da ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-46) tão emblemática e carregada de significados, e que refletidos com seriedade e abertura de coração mostra, no fundo, uma realidade espiritual por que passa a quase que totalidade das nossas famílias.
A passagem do Evangelho mostra uma família que passa pela triste realidade da perda de um ente querido: Lázaro, aquele que Jesus amava (Jo 11, 36) que agora se encontra insepulto no sepulcro de pedra, frio e escuro, vedado por uma grande pedra e atado em faixas.
A reflexão tem início, então, a partir da causa mortis. O que o vitimou? O texto não faz menção ao personagem especificamente, mas quando se amplia a visão e mergulha-se na profundeza do significado espiritual da morte de qualquer ser humano, que não se trata aqui no sentido apenas biológico, mas da alma, encontra-se uma única causa, uma única razão.
A causa, a razão desta morte não é outra senão aquela para qual Nosso Senhor Jesus Cristo veio para ser remédio: o pecado. O pecado que adentrou no mundo por nossos primeiros pais (Adão e Eva) como diz São Paulo em sua Carta aos Romanos: “Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano.” (Rm 5, 12), e por meio deste o inimigo de Deus tem abatido muitas vidas.
Porém, qual o itinerário até um tal fim? A resposta está na própria Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo: o homem cai na sedução do inimigo, vende-se a ele pelas “trinta moedas” (os prazeres, as paixões, as concupiscências...), aprisionado viverá as torturas que uma vida de pecado irá trazer (dores, angústias, choro...), o pecado trará o escárnio, a zombaria, a troça, a humilhação, e depois de muito penar, a morte.
Morto, então, espiritualmente falando, Jesus não age, pois o coração que deveria ser para amar a Deus, adorá-lo como um templo santo, tornou-se um “sepulcro” de pedra, frio e escuro, vedado por uma grande rocha onde ali jaz um “lázaro” sem vida, que não ama a Deus, nem ao próximo, muito menos a si mesmo.
Este “sepulcro” são famílias na pessoa de um pai, ou de uma mãe, ou de filhos ou de todos juntos. Todos ali, inertes, já cheirando mal, que bem poderiam como o filho pródigo entrarem em si mesmos, refletir e concluir: pequei! Vou voltar ao meu Pai! E neste choque de realidade utilizarem-se deste tempo Pascal para um propósito de ressurreição, porém, não se arrojam em tentar.
Mas que bom que Deus na sua infinita misericórdia se utiliza de outros instrumentos para realizar sua obra salvífica, pois, como diz a Escritura no livro da Sabedoria: “Deus não é o autor da morte; a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma.” (Sb 1, 13); e assim, ele se utiliza das “martas” e “marias” que fizeram seu clamor chegar a Jesus levando-O a declarar aos discípulos: Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo” (Jo 11, 11).
Essas “martas” e “marias” são qualquer um deste núcleo familiar, ou mesmo amigos próximos que elevando seu clamor ao Deus que tudo pode, move-o de compaixão (Jo 11, 34) levando-O a decidir: “Tirai a pedra” (Jo 11, 39), pois o Senhor age mediante a moção do seu povo; e a missão de todo cristão é colaborar para que a “pedra” dos “corações sepulcrais” seja rolada para que o Deus da vida aja, e esta ação vem pela sua Palavra que determina: “Lázaro vem para fora!” (Jo 11, 43), pois aqui se faz concreta a palavra profética de Jesus aos fariseus quando dizia: “Em verdade, em verdade vos digo: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão.” (Jo 5, 25)
Mediante a ordem dada Lázaro ressuscita, e sai atado em suas faixas às quais o Senhor pede que lhe as retirem (Jo 11, 44) para que livre esteja. Assim, acontecerá às famílias que se encontram sepultadas em virtude do pecado do egoísmo, do individualismo, do materialismo, do hedonismo, da vaidade e orgulho, da apostasia... Ao ouvirem a Palavra que devolve a vida, que diz com voz forte: famílias, vinde para fora!, ressuscitarão para uma vida nova, transformadas, onde dali em diante nenhum outro tempo Pascal será mais desperdiçado, mas vivido intensamente, para que a glória de Deus se faça presente mais e mais.
Jesus Cristo vivo e ressuscitado seja a ressurreição para todas as famílias.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.