terça-feira, 25 de abril de 2017

Famílias, venham para fora!

Findou-se mais um tempo Pascal, um tempo propício de reflexão, oração e tomada de decisão por uma mudança de vida, uma decisão por conversão.
Toda a cristandade é conclamada a viver este tempo com intensidade e propósito sincero; no entanto, o que mais se observa são cristãos que chegam ao Domingo de Páscoa da mesma maneira que antes da quarta-feira de cinzas: descompromissados, despreocupados, desinteressados no rumo a que tem dado à sua própria vida, e assim, um período que deveria ter sido aproveitado com toda intensidade é relaxado e menosprezado.
Desta forma, o que se continua a observar são homens e mulheres, jovens e adultos, famílias em geral chegando ao Domingo da Ressurreição vivendo a triste realidade dos seus “sepulcros” pessoais. Por isso ser a passagem da ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-46) tão emblemática e carregada de significados, e que refletidos com seriedade e abertura de coração mostra, no fundo, uma realidade espiritual por que passa a quase que totalidade das nossas famílias.
A passagem do Evangelho mostra uma família que passa pela triste realidade da perda de um ente querido: Lázaro, aquele que Jesus amava (Jo 11, 36) que agora se encontra insepulto no sepulcro de pedra, frio e escuro, vedado por uma grande pedra e atado em faixas.
A reflexão tem início, então, a partir da causa mortis. O que o vitimou? O texto não faz menção ao personagem especificamente, mas quando se amplia a visão e mergulha-se na profundeza do significado espiritual da morte de qualquer ser humano, que não se trata aqui no sentido apenas biológico, mas da alma, encontra-se uma única causa, uma única razão.
A causa, a razão desta morte não é outra senão aquela para qual Nosso Senhor Jesus Cristo veio para ser remédio: o pecado. O pecado que adentrou no mundo por nossos primeiros pais (Adão e Eva) como diz São Paulo em sua Carta aos Romanos: “Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano.” (Rm 5, 12), e por meio deste o inimigo de Deus tem abatido muitas vidas.
Porém, qual o itinerário até um tal fim? A resposta está na própria Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo: o homem cai na sedução do inimigo, vende-se a ele pelas “trinta moedas” (os prazeres, as paixões, as concupiscências...), aprisionado viverá as torturas que uma vida de pecado irá trazer (dores, angústias, choro...), o pecado trará o escárnio, a zombaria, a troça, a humilhação, e depois de muito penar, a morte.
Morto, então, espiritualmente falando, Jesus não age, pois o coração que deveria ser para amar a Deus, adorá-lo como um templo santo, tornou-se um “sepulcro” de pedra, frio e escuro, vedado por uma grande rocha onde ali jaz um “lázaro” sem vida, que não ama a Deus, nem ao próximo, muito menos a si mesmo.
Este “sepulcro” são famílias na pessoa de um pai, ou de uma mãe, ou de filhos ou de todos juntos. Todos ali, inertes, já cheirando mal, que bem poderiam como o filho pródigo entrarem em si mesmos, refletir e concluir: pequei! Vou voltar ao meu Pai! E neste choque de realidade utilizarem-se deste tempo Pascal para um propósito de ressurreição, porém, não se arrojam em tentar.
Mas que bom que Deus na sua infinita misericórdia se utiliza de outros instrumentos para realizar sua obra salvífica, pois, como diz a Escritura no livro da Sabedoria: “Deus não é o autor da morte; a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma.” (Sb 1, 13); e assim, ele se utiliza das “martas” e “marias” que fizeram seu clamor chegar a Jesus levando-O a declarar aos discípulos: Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo” (Jo 11, 11).
Essas “martas” e “marias” são qualquer um deste núcleo familiar, ou mesmo amigos próximos que elevando seu clamor ao Deus que tudo pode, move-o de compaixão (Jo 11, 34) levando-O a decidir: “Tirai a pedra” (Jo 11, 39), pois o Senhor age mediante a moção do seu povo; e a missão de todo cristão é colaborar para que a “pedra” dos “corações sepulcrais” seja rolada para que o Deus da vida aja, e esta ação vem pela sua Palavra que determina: “Lázaro vem para fora!” (Jo 11, 43), pois aqui se faz concreta a palavra profética de Jesus aos fariseus quando dizia: “Em verdade, em verdade vos digo: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão.” (Jo 5, 25)
Mediante a ordem dada Lázaro ressuscita, e sai atado em suas faixas às quais o Senhor pede que lhe as retirem (Jo 11, 44) para que livre esteja. Assim, acontecerá às famílias que se encontram sepultadas em virtude do pecado do egoísmo, do individualismo, do materialismo, do hedonismo, da vaidade e orgulho, da apostasia... Ao ouvirem a Palavra que devolve a vida, que diz com voz forte: famílias, vinde para fora!, ressuscitarão para uma vida nova, transformadas, onde dali em diante nenhum outro tempo Pascal será mais desperdiçado, mas vivido intensamente, para que a glória de Deus se faça presente mais e mais.
Jesus Cristo vivo e ressuscitado seja a ressurreição para todas as famílias.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Solo, água, semente...uma boa colheita!

A salvação de Deus, que quer alcançar cada pessoa, e a humanidade inteira, para que aconteça requer as condições e os elementos ideais afim de que se dê a contento.
As Sagradas Escrituras, seja no Antigo Testamento, seja no Novo Testamento, deixam essa necessidade evidente, e isso se faz perceber em muitas passagens, principalmente dos Profetas. Ainda no Patriarca Abraão já se faz ver essa imperiosidade das condições ideais para que uma obra restauradora se concretize, e isso se percebe quando diz a Abraão: "Deixa a tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar." (Gn 12, 1)
Deus mostra que seu plano salvífico passa pela necessidade de um ambiente propício à sua ação, e que não pode ser uma "terra ruim", um solo não agradável, onde, no caso de Abraão o lugar que habitava era marcado pela idolatria e paganismo, ainda que ele não o fosse.
O mesmo se observa com Moisés quando ao receber o mandato de Deus de retirar o povo israelita do cativeiro do Egito conduzi-os para uma "terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel" (Ex 3, 8), a terra prometida, ou seja, uma terra nova, um solo propício, sem a influência da idolatria e do paganismo, um lugar onde um só Deus seja adorado e reconhecido.
O Pai necessita de um solo adequado para realizar o que deseja: fazê-lo fértil e produtivo, frutuoso. Para isso, este solo deve ter os elementos necessários à sua fertilidade, e dentre eles, a água.
Um solo ressequido, estéril não tem condições de produzir; e por isso que na passagem de Is 44, 3 Deus diz: "Porque derramarei água sobre o solo sequioso, eu a farei correr sobre a terra árida...". Este solo sequioso, esta terra árida, não é outro senão o coração de cada homem bem como a sua alma, que em virtude do pecado, mais e mais se ressecam e inviáveis à ação de Deus, ao amor de Deus, se tornam.
No entanto, na profecia Ele promete derramar água sobre estes "solos" inviáveis e esta "água" não é outra senão a "água viva" (Jo 4, 10): Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo, Aquele do qual fez menção aos discípulos que "se Eu não for o Paráclito não virá" (Jo 16, 7); daí na sequência da profecia de Isaías, no versículo 4 Deus dizer: "derramarei meu Espírito sobre tua posteridade..."
É o Espírito Santo a "água" que vem tornar todo solo sequioso livre do pecado da idolatria e do paganismo, e de todo e qualquer outro pecado que tornava o "solo" deste coração, desta alma impossibilitado, passando-o a torná-lo, agora, apto a receber a semente da Palavra de Deus como ensina Nosso Senhor Jesus Cristo em Mt 13, 1-23.
Naquela parábola do semeador, Jesus ensina que a semente só renderá bons frutos na terra boa, aquela livre do pecado e que se torna receptiva ao Espírito Santo; por isso a necessidade de mais e mais se deixar conduzir, regar, por esse Espírito, pois é Ele que convence do pecado (Jo 16,8), que derrama o amor de Deus nos corações (Rm 5, 5).
É esse mesmo Espírito Santo que leva a aceitar Jesus como Salvador, que suscita a fé (1 Cor 12, 9) e promove conversão, o que fará esse "solo inútil" tornar-se fértil e frutuoso.
Necessário se faz, então, tomar consciência de que é imperioso sair da "terra do egito" para tornar-se "terra prometida", onde ali Deus encontra lugar digno de habitar e realizar seus propósitos de salvação; logo, que o Espírito Santo te faça: uma terra boa, te regue com a água ideal e a lance as sementes que gerarão frutos de salvação, para si e para outros.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Quaresma: um tempo para brilhar

Narra a Palavra de Deus que Moisés ao descer do monte tinha a pele do seu rosto brilhante. O que tornou Moisés radiante? O que o motivou? Esse brilho era apenas para Ele? O que tem isso haver com a quaresma?
Observe-se, então, o princípio de tudo: o pecado. Tudo se inicia com o povo erigindo um bezerro de ouro (Ex 32, 1-4); Deus se ira com tal atitude e declara a Moisés: "Vejo - continuou o Senhor - que esse povo tem a cabeça dura. Deixa, pois, que se acenda minha cólera contra eles e os reduzirei a nada; mas de ti farei uma grande nação." (Ex 32, 9-10). Moisés não aceita e recorre à promessa de Deus aos patriarcas (Ex 32, 13) e, no intuito de reverter tal situação, sobe ao monte.
No alto da montanha fica quarenta dias e quarenta noites em jejum e oração, rogando por si e por toda a população, e assim consegue demover o Senhor da decisão tomada, além do que realiza a purificação interior que lhe faz brilhar.
Fica patente, portanto, que a história da humanidade, desde Adão e Eva, é pecar contra Deus, desobedecê-Lo; com isso atrai contra si a justiça do Pai, logo, é mister que o homem necessita endireitar-se, converter-se, e para isso uma atitude é obrigatória e algumas práticas são necessárias.
A atitude é de reconhecer que peca e ofende a Deus, e arrependido precisa buscar seu perdão; mas além do perdão precisa buscar mudança, e para isso Moisés utiliza-se do que no Evangelho de São Mateus 6, 1-18 Nosso Senhor Jesus Cristo vai tornar claro: práticas necessárias para que esta mudança ocorra.
E que práticas são essas? Diz a Palavra que "No dia seguinte, Moisés disse ao povo: "Cometestes um grande pecado. Mas vou subir hoje ao Senhor, talvez obtenha o perdão de vossa culpa"" (Ex 32, 30). Moisés vai a Deus para interceder pelo pecado do povo que pecou afim de que não sejam destruídos, logo, age caritativamente.
Ao subir ao Monte Sinai passa, então, a clamar ao Senhor "Oh, esse povo cometeu um grande pecado: fizeram para si um deus de ouro. Rogo-vos que lhes perdoeis agora esse pecado! Senão, apagai-me do livro que escrevestes". (Ex 32, 31-32); Moisés está em oração, em diálogo com Deus, clamando pelo povo.
Diz ainda a Palavra que "Moisés ficou junto do Senhor quarenta dias e quarenta noites sem comer pão nem beber água" (Ex 34, 28), ou seja, Moisés estava em jejum, penitência, e assim alcança o perdão de Deus.
O servo de Deus utilizou-se, então, das três práticas que Nosso Senhor Jesus Cristo explicita no Evangelho de São Mateus: a caridade (Mt 6, 2-4); a oração (Mt 6, 5-15) e o jejum (Mt 6, 16-18), são as chamadas práticas quaresmais que nos quarenta dias (que remontam a Moisés no Monte) que precedem a Semana Santa são recomendados pela Igreja como meio para a conversão pessoal, e porque não, de outros.
A experiência de Moisés se conclui com sua descida do monte onde a Sagrada Escritura narra que: "(...). Descendo do monte Moisés não sabia que a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor. E, tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele." (Ex 34, 29-30)
A vivência da quaresma por meio das práticas propostas, tem função reparadora e restauradora e quando exercitadas fielmente - e muito certamente uma quaresma apenas não será suficiente -, produzirá seus efeitos, e entre eles o "brilho" da alma, brilho fruto da purificação que externa a presença de Deus que é luz, que é Sol, mas cujo fulgor não resplandece em virtude do pecado que, como uma barreira, impede esta glória de se manifestar.
A essência da quaresma reside, então, neste tempo de subida do monte para ali encontrar-se o Deus que perdoa as faltas, purifica a alma e faz brilhar a luz que resplandece sobre as trevas.
Essa quaresma seja, então, um tempo propício para propor-se à conversão afim de que o tempo de escuridão seja vencido, as ofensas a Deus sejam expurgadas, a tempo da afronta a Deus dê lugar a um novo tempo, um tempo de obedecer, um tempo de brilhar.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"...Levai a notícia às ilhas longínquas" (Jr 31, 10)

Ao ler o capítulo 31 do Livro do Profeta Jeremias, chamou-me a atenção o versículo 10 que diz: "Nações, escutai a Palavra do Senhor; levai a notícia às ilhas longínquas e dizei: "Aquele que dispersou Israel o reunirá e o guardará, qual pastor o seu rebanho""; chamou-me a atenção porque, também o profeta Isaías usa uma expressão, um termo, contido em Jeremias: ilha. Em Isaías 42, 3-4 diz: "Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião, não desanimará, nem desfalecerá, até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra, e até que as ilhas desejem seus ensinamentos"; também o versículo 12 deste mesmo capítulo diz: "Que dêem glória ao Senhor e espalhem seu louvor pelas ilhas!"; e ainda o capítulo 49, 1 exorta: "Ilhas, ouvi-me, povos de longe, prestai atenção!".
A palavra ilha salta aos olhos e suscita uma reflexão sobre o que significaria. Longe de aqui ser um exegeta, recolhendo-me à minha insignificância, o entendimento que me veio, tomando por base o conhecido conceito de ilha que se aprende nos livros: porção de terra rodeada de água por todos os lados, foi que "ilha" é cada pessoa, em particular e povo ou nação, em geral. Nesse contexto, um ou outro não estão cercados por água, mas por um "mar" de pecados que os isolam da graça de Deus semelhante às muralhas de Jericó (Js 6, 1-27).
Esse "mar", essa "muralha" pode ser o orgulho, a vaidade, o egoísmo, o individualismo, o relativismo, o egocentrismo, a apostasia...enfim, males que entre tantos outros encontram-se relacionados em longa lista nas Cartas de São Paulo aos Romanos (Rm 1, 19-31) ou aos Gálatas (Gl 5, 19-21).
Tornamo-nos ilhados por esse proceder e fechando-nos em nós mesmos, perdemos a noção de que além desse "mar" existe um continente, uma terra ampla e espaçosa, terra que mana leite e mel, terra onde somos cuidados e guardados por um Pastor (Jo 10, 1-16) que nos ensina que ensimesmados não aprendemos, senão, a decairmos como seres humanos, mas que, pelo contrário, quando aprendemos a conviver, a nos relacionarmos, a nos enxergarmos e nos deixarmos enxergar, a ajudarmos e nos deixarmos ajudar pelo outro crescemos.
Ser "ilha" é imaginar que, a primeira vista, parecemos estar num paraíso onde tudo é belo e perfeito, mas que com o passar do tempo, a agonia da solidão vai tornando aquele lugar feio e sem graça, e a medida que o tempo prolonga-se aquela realidade torna-se insuportável; e assim somos nós ao acharmos que nos bastamos, que é suficiente o que já temos de nosso, fruto dos nossos méritos, até perceber que no fundo aquela realidade pode até agradar outros, menos a mim mesmo.
Esses "ilhados" em algum momento reconhecerão seu isolamento, e o sofrimento por tal situação os afligirá, e a única maneira de abandonar tal situação é recorrer ao "barco", ou melhor, à Barca que por ali passar que é a Igreja, que é o próprio Cristo Senhor.
Daí a profecia de Jeremias proclamar: "Levai a notícia às ilhas longínquas", que são esses corações, essas almas distanciadas do amor, da paz, da segurança, da verdadeira alegria que só se encontra em Jesus. Por isso a importância de se compreender a exortação de São Paulo a Timóteo em 2 Tm 4, 1-2: "Eu te conjuro em presença de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, por sua aparição e por seu Reino: prega a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir", pois mostra claramente a necessidade de resgatar estes "ilhados", esses desventurados que precisam ter um encontro pessoal com Jesus para viver uma vida nova de bem-aventurados.
Nós como Igreja tenhamos no coração, impulsionados e auxiliados pelo Espírito Santo, este desejo de ir às "ilhas", levar-lhes a Boa-Notícia e trazê-las para lugar aprazível: o coração de Jesus.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Desfigurados ou transfigurados?

A Sagrada Escritura é claríssima no que tange à necessidade de se fazer uma escolha, uma opção, seja por Deus, seja pelo mundo, evidência esta apresentada em várias passagens, principalmente nos Evangelhos, pelo próprio Senhor Jesus Cristo.
No Antigo Testamento, Deus fala ao povo de Israel por meio de Moisés: "(...) ponho diante de ti a vida e a morte..." (Dt 30, 19); Josué, ante a sublevação do povo declara: "Porém se vos desagrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem serviram os vossos pais além do rio, se aos deuses dos amorreus, em cujas terras habitais. Por que, quanto a mim, eu e minha casa serviremos o Senhor." (Js 24, 15); temática do servir que Jesus, já no Novo Testamento, deixa patente, mostra a necessidade de escolha quando diz: "Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de aderir a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Lc 16, 13); Jesus fala sobre escolher entre seguir sua Palavra e construir a casa na rocha, ou não segui-la e construir a casa na areia (Mt 7, 24-27); nos Atos dos Apóstolos ver-se-á Pedro e João diante dos fariseus respondendo às ameaças que recebiam com o seguinte argumento: "Julgai-o vós mesmos se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus." (At 4, 19)
Numa caminhada espiritual, escolhas não são opção, são obrigatórias, e a partir desta livre decisão do homem é que se observará, futuramente, no que se mudou, no que se transformou, pois, indubitavelmente, o resultado das opções feitas trarão consequências.
Quando São Paulo nos exorta: "Não vos conformeis com este mundo" (Rm 12, 2), faz um claro pedido e deixa um alerta: optar por viver segundo o mundo, a carne, o inimigo, sobre a égide do pecado, é conformar-se, é tomar a forma do mundo, que na verdade é desfigurar-se, é perder a formosura, as feições, a beleza segundo aquilo que Deus gostaria que fosse.
Esse desfigurar pelo pecado evidencia-se na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, como bem ensina o Papa Emérito Bento XVI no seu livro "Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém à ressurreição", quando explica que Jesus ali, perante Pilatos, já desfigurado pela flagelação, é mostrado ao povo com a frase: "Eis o homem". Eis todo aquele que escolhe a desobediência, eis aquele que prefere rejeitar a Deus e a Sua Palavra.
Contrariamente a estes, que infelizmente são a imensa maioria, existem, também, os que preferem obedecer e seguir os salutares ensinamentos do Senhor, que optam por serem fiéis aos seus Mandamentos, ainda que conscientes que abraçá-los será caminho de cruz, como bem avisa Jesus (Mt 16, 24).
Aqueles que decidem ser conforme o que Deus quer e buscam serem "santos como Ele é Santo" (1 Pe 2, 16), "perfeitos como Ele é perfeito" (Mt 5, 12), obedientes como Ele foi obediente (Fl 2, 8), são os que permitem ao Senhor lapidá-los, moldá-los, aperfeiçoá-los até o ponto que essa transformação alcance a transfiguração, como está no relato da vida de tantos santos e santas.
Essa transformação que requererá uma reforma, terá que passar, obrigatoriamente, pela livre anuência da pessoa, que ao dar esta permissão viverá a realidade da passagem do Livro do Profeta Jeremias sobre o vaso do oleiro (Jr 18, 1-6) quando Deus ordena ao profeta levar ao povo de Israel a mensagem de que, assim como o barro nas mãos do oleiro será transformado num belo vaso, da mesma forma Deus diz ao povo, e a cada um que se deixa moldar: "Casa de Israel, não poderei fazer de vós o que faz esse oleiro? - oráculo do Senhor".
A argila, sem nenhuma objeção, deixa-se moldar; o homem, rebaixando-se nas mãos do Senhor será assim moldado num belo vaso, num vaso de honra (2 Tm 2, 21), digno de receber o melhor "vinho", que é o Espírito Santo, que não pode ser posto em odre velho (Mt 9, 17).
Eis, portanto, mais uma escolha a fazer: por si e seus atos desfigurar-se, ou em Jesus, transfigurar-se, fazendo, assim, brilhar a Luz do mundo (Jo 8,12) que é Cristo substituindo uma vida perdida e mergulhada em trevas por uma vida nova Naquele que "faz nova todas as coisas" (Ap 21, 5).
A exemplo de Maria irmã de Lázaro, escolha a melhor parte, escolha a Jesus e seja transformado pelo seu imenso amor.
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Jesus e o dom da Palavra Eficaz

A Palavra de Deus nunca foi lançada, proferida a esmo, bem como nunca foi pronunciada em vão, mas pelo contrário, sempre com um objetivo, um fim a alcançar, daí o profeta Isaías dizer que "...assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão." (Is 55, 11)
Semelhantemente, com Nosso Senhor Jesus Cristo não é diferente, visto ser Ele o Verbo de Deus (Jo 1, 1), a Palavra que se fez carne (Jo 1, 14), e por isso palavra nenhuma proferida pelo Senhor deixou de ter sentido, significado, eficácia, o que leva a afirmar que o que Jesus disse não foi em vão, mas realizou.
Assim, desde a sua primeira fala aos doze anos quando é encontrado pelos pais entre os doutores da Lei no Templo (Lc 2, 46), ao ser interpelado por Nossa Senhora responde: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?" (Lc 2, 49), e já nessa primeira fala o Senhor deixa patente que sua palavra tem razão, tem um por que, que na ocasião não era, de forma alguma, uma resposta mal-educada à mãe, mas um rememorar da missão à qual devia cumprir.
De igual maneira seguirá Jesus, principalmente quando assumir publicamente sua missão. Em todos os Evangelhos, nas mais diversas passagens onde se encontrar Jesus pregando, ensinando, exortando, repreendendo, curando..., ver-se-á esta Palavra eficaz agindo, deixando uma mensagem, realizando um milagre, provocando reações (seja de adesão, seja de repúdio), mas nunca sem resultado.
O dom da Palavra eficaz de Nosso Senhor Jesus Cristo manifesta-se em todas as passagens apresentadas de forma belíssima, carregadas de amor e com um único propósito: que creiam em seu Nome e pela fé sejam salvos. Daí tantos momentos que encantam e impressionam, como por exemplo, os encontros.
Quantos encontros de Jesus com homens e mulheres de todas as nuances que produziram momentos ímpares: com Pedro, a conversão vai se dar a partir de um milagre precedido de uma palavra: "Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar." (Lc 5, 4) e daquele dia em diante o pescador de peixes seria feito "pescador de homens" (Lc 5, 10); com Zaqueu a conversão vai se dar a partir de um convite: "...desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa." (Lc 19, 5), e o homem ávido pelo dinheiro, ganancioso, agora abre-se para partilhar com o próximo; com Levi (Mateus) a conversão vai se dar a partir de um chamado direto: "Segue-me" (Mt 9, 9), e o cobrador de impostos que somente sabia receber passará a doar, doar a vida por amor a Deus e pelo bem do próximo.
Encanta, também, essa Palavra eficaz produzindo milagres, sinais, prodígios, pois a tempestade foi acalmada com um "Silêncio. Cala-te" (Mc 4, 39); a surdez foi curada com um "Efeta, abre-te" (Mc 7, 34); Lázaro é ressuscitado com um "Vem para fora" (Jo 11, 43); um paralítico com trinta e cinco de prostração restaura a saúde quando ouve: "Levanta-te, toma o teu leito e anda" (Jo 5, 8)
Essa Palavra eficaz estava nas parábolas que continham ali ensinamentos preciosos que ligados à realidade cotidiana da gente daquele tempo que O cercava era acessível e atraente, ainda que aparentemente sem sentido para que confundisse os sábios de então: os fariseus.
A Palavra eficaz de Jesus mesmo suscitando as mais diversas reações: alegria, espanto, perplexidade, ira, temor..., não perdia o foco: revelar o Pai e o seu Reino ao qual todos eram chamados a dele participar.
Essa Palavra eficaz de Jesus foi realmente eficaz porque esteve sempre fundamentada na Verdade, por isso incapaz de ser questionada, objetada, desprezada ou anulada, ainda que os contrários ao Senhor à época o tentasse de todas as maneiras, inclusive tramando e executando sua morte.
Porém, como bem diz o Apóstolo São Paulo: "...Mas a Palavra de Deus, esta não se deixa acorrentar" (2 Tm 2, 9), e assim Ela atravessa os séculos e milênios, produzindo os mesmos efeitos quando usada por homens que a disseminam retamente, sem desvios ou distorções, e assim ela segue o seu curso: produzindo nos corações que a Ela dão crédito, e ao seu Autor que por elas age eficazmente, vida e vida em abundância (Jo 10, 10).
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Bem mais que um pirulito

Imagine uma criança que se depara com um homem a chamá-la, fazendo-lhe acenos e com um sorriso conquistador. Não diferente de qualquer criança, a reação será de estranheza, que se mudará em temor e que suscitará uma inevitável fuga da presença daquele estranho.
Assim se comporta todo homem perante Jesus, que a cada dia, seja na individualidade, seja comunitariamente, na Santa Missa, em reuniões de oração, momentos de evangelização...apresenta-se com um convite a uma aproximação, mas que recebe da parte da grande maioria uma fuga carregada de temor como resposta.
No entanto, aquele homem não desiste de uma aproximação, sendo que agora usará de uma estratégia, de um meio mais eficaz que atraia a atenção da criança; e nada mais eficaz que um doce, um pirulito, por exemplo.
A criança, ainda que arredia, ao visualizar aquele belo e saboroso pirulito na mão do homem já não apresenta o temor de antes, nem sairá em fuga, mas, ainda que cheia de desejo, optará por não se aproximar, ainda.
O homem em relação a Cristo se comportará da mesma maneira. Apesar de o Senhor mostrar o "pirulito" do seu amor, do seu perdão, da sua bondade..., ainda encontrará um homem de coração reticente e que continuará, ainda que sem tanto temor, preferindo não se aproximar.
Numa outra oportunidade a criança reencontra o homem, com o mesmo sorriso, mas agora tendo na mão um pirulito enorme como aquele do Kiko do seriado "Chaves". Agora a criança sem temor e cheia de confiança, pois não vislumbra maldade naquele adulto, ouve aquela voz interior que diz: "Vai, confia!", e assim ela vai e pega o pirulito, e aceita o abraço daquele homem que antes tivera tanto temor, e percebe que, na verdade, é um homem maravilhoso, amoroso, acolhedor, e a partir dali criam uma bela amizade.
Da mesma forma, Jesus ao perceber que somente exprimir seu amor, perdão, bondade, não obterá abertura da parte do homem, lança mão de "pirulitos" mais vistosos: os milagres; ou não foi assim que atraiu multidões? Curando, libertando, ressuscitando, alimentando...e assim, as pessoas sentem interesse de aproximar-se, auxiliadas pela voz interior que diz "Vai, confia!", voz que se chama fé.
No entanto, aquela criança já sem medo algum e sabendo que no encontro com o bom amigo terá sempre um pirulito à espera, em dado momento escutará do amigo que o que tem para ela é bem mais que um pirulito, mas que na verdade tem para ela uma fábrica inteira de diversificados tipos de doces e delícias, mas que para ter acesso a ela há uma condição a cumprir: tem que ser santo como ele.
Semelhantemente, o homem que já íntimo do Senhor Jesus e afeito às benéces que Dele recebe, em dado momento receberá este convite a desejar mais que um delícia momentânea, mas alcançar o lugar onde todas as delícias, todas as maravilhas se encontram em abundância: o céu. Porém, para ter acesso a este tão maravilhoso lugar uma condição é exigida: ser santo como Ele é Santo (1 Pe 1, 16).
Alcançar vida de santidade, fazendo aquilo que é a vontade de Deus a nosso respeito: "a nossa santificação" (1 Ts 4, 3), é necessário empenho em cumprir alguns dos pressupostos que o Apóstolo São Pedro exorta a viver ao falar de santidade em 1 Pe 1, 13-24, onde, entre outras coisas pede: sobriedade (vers. 13); renúncia aos desejos do homem velho (vers. 14); temor do Senhor (vers. 17); obediência à verdade e amor fraterno sincero (vers. 22).
Entretanto, como crianças espertas que querem apenas o pirulito, e nem tanto o dono do doce, muitos se aproximam pelos milagres que o Senhor lhes pode proporcionar e não um busca de intimidade com Ele, que é o que Jesus realmente deseja; algo que ainda é piorado com o advento da "teologia da prosperidade" que leva as pessoas a buscarem mais os milagres de Deus e não o Deus de milagres.
Aqueles que progridem nessa busca de santidade serão aqueles que em determinado momento já não farão mais conta dos "pirulitos", pois o próprio Cristo é o seu desejo maior, caso de São Paulo que diz "Não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim", de Santa Tereza D'Àvila que diz: "Só Deus basta"...; estes alcançaram a união perfeita, estes são os tantos santos e santa que dão exemplo e que hoje gozam da "fábrica das delícias" ao lado do "dono".
Deus te abençoe em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.